Saída pelos arranjos


CRÉDITO: UBER/DIVULGAÇÃO

Transformações no mundo do trabalho exigem novas formas de organização coletiva diante do colapso do modelo neoliberal


Por J. Carlos de Assis e Luiz Gonzaga Belluzzo – Em geral, os contemporâneos não costumam reconhecer os sinais de mudanças de eras, mesmo que profundos, nos primeiros momentos em que ocorrem. Ficam prisioneiros dos paradigmas passados, cristalizados em preconceitos ideológicos que dificultam não só a visão do presente, mas também das perspectivas futuras. Isso se aplica à situação atual: passando por um momento de desemprego formal em níveis historicamente baixos, o País não vê o que de fato acontece no Mundo do Trabalho em níveis mais profundos.

O ritmo extremamente rápido da introdução de novas tecnologias no sistema produtivo (automação, robotização, Inteligência Artificial) implicou, num curto período de tempo, sem precedentes, a virtual expulsão de milhões de trabalhadores dos setores da economia que tradicionalmente ofereciam os melhores empregos, principalmente a indústria. Num primeiro momento, a ideologia neoliberal tentou ocultar esses fatos com uma falácia: a substituição do trabalho formal na fábrica, no comércio ou nos serviços pelo “empreendedorismo” individual.

Entretanto, uma pesquisa recente do IBGE mostrou que nada menos do que 53% dos trabalhadores que optaram pelo empreendedorismo individual querem voltar para a carteira assinada, uma instituição liquidada por Temer e Bolsonaro. É absolutamente certo que não voltarão. As empresas não abrirão mão de suas tecnologias para voltar a um sistema muito menos eficiente e lucrativo, representado, no passado, pelos trabalhadores de chão de fábrica da primeira Revolução Industrial, hoje totalmente descartáveis.

A Revolução Industrial de agora é fundamentalmente tecnológica. Entramos na era dos robôs e da Inteligência Artificial, cuja principal característica é economizar a força de trabalho humana. Na mesma direção apontam as outras forças do capitalismo, que migram do sistema produtivo para o sistema financeiro especulativo, concentrador de renda e obstáculo absoluto a um processo de sua distribuição mais equânime, já que, sem a base ampla de trabalho organizado, não há a quem distribuir.

Esta é a realidade atual e do futuro próximo. Se nos atrevermos a olhar mais adiante, seremos forçados a concordar com o presidente do IBGE, Márcio Pochmann, segundo o qual milhões de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros não conseguirão se aposentar quando tiverem idade para isso. Serão os repelidos de uma vida normal pela sociedade capitalista, como escória. Morrerão de fome, à margem da carcaça corroída do sistema previdenciário legado às gerações futuras por Michel Temer e Jair Bolsonaro.

A virtual liquidação da Previdência Social não teria sido um desastre completo se o País não tivesse uma política de equilíbrio orçamentário que, no fundo, é um compromisso com a estagnação. Na hipótese de um déficit fiscal que estimulasse a demanda e o crescimento, seria possível, com taxas básicas de juros razoáveis, que a receita tributária resultante do aumento do PIB compensasse os furos do sistema previdenciário. Mas os neoliberais, exprimindo os conceitos de responsabilidade fiscal da Faria Lima e da Febraban, defendem equilíbrio orçamentário. E há até profetas do absurdo que querem superávit fiscal!

Nesse contexto, qual será o destino dos milhões de trabalhadores que estão sendo repelidos do mercado de trabalho formal? Voltar para esse mercado, como dissemos, não será possível. O tal empreendedorismo individual é um fracasso. Assim, só vemos para eles uma saída: a organização do trabalho de forma coletiva. Para isso, convém que usem os únicos instrumentos que o capitalismo degradado e concentrador de renda deixará aos pósteros: os Arranjos Produtivos Territoriais e Vocacionais, institucionalizados em Sociedades Anônimas, com propriedade e gestão dos próprios trabalhadores.

Essa é a única linha de defesa que se apresenta às trabalhadoras e aos trabalhadores ameaçados pelo capitalismo decadente, no qual um único fundo de investimento acumula mais de 11 trilhões de dólares em ativos em papel, acima da soma dos PIBs de 40 países. É um acinte e um desafio aos sentimentos de solidariedade humana, que poderão ser recuperados nos Arranjos Produtivos. Claro, a farra financeira não durará para sempre. Trata-se de um gigantesco esquema Ponzi que só se mantém de pé, por enquanto, porque os saques feitos por cima se compensam pela entrada de aplicações por baixo.

Atualmente, de acordo com dados do FMI, a relação entre ativos de papel em circulação no mundo é três vezes maior do que os PIBs de todos os países. Se os investidores nesses supostos ativos decidirem sacar seu dinheiro juntos, não haverá ativos reais para atendê-los, e o planeta será sacudido por uma explosão financeira sem precedentes. Infelizmente, por culpa exclusiva de nossas autoridades neoliberais, temos a mesma característica especulativa do mundo globalizado: tornamo-nos, pela articulação entre política fiscal restritiva e juros estratosféricos, uma economia centrada na especulação e não na produção, como tem sido o caso da vitoriosa economia chinesa.

Contudo, considerando nosso potencial em recursos materiais e humanos, temos de tudo para garantir bases sólidas de uma economia produtiva, desde energia hídrica, solar e eólica até a petrolífera (que entendemos que deve continuar sendo usada até a energia limpa tomar seu lugar pela força do próprio mercado, ou seja, pelo seu custo de oportunidade). Na contramão dessa realidade, em termos de crescimento econômico, estamos na lanterninha do bloco BRICS: devemos ter uma taxa de crescimento do PIB de cerca de 2% neste ano, enquanto a Rússia, um país em guerra, deverá crescer mais de 4%, a China 5% e a Índia cerca de 7%. É o que o neoliberalismo nos deve!

Obviamente, não é por conta de ideologia que nossa economia está afundando. A ideologia é apenas um meio para servir aos interesses das classes dominantes. Elas pagam bem por opiniões a seu favor. Com isso, perpetuam-se no poder real, inclusive pela manipulação do sistema político-partidário e do Congresso. É essa erva daninha que deve ser arrancada nas próximas eleições em favor do interesse público!

"A leitura ilumina o espírito".

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