
Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, o professor João Cláudio Pitillo, que prepara o lançamento do livro A Grande Revolução, explica como o Império Russo com um histórico de séculos deu lugar a uma república socialista soviética, criada logo após a Revolução de 1917, além de comentar a influência do movimento no Brasil e na América Latina; "Apesar de estarmos falando de uma época em que não havia internet e o telégrafo funcionava muito mal, a Revolução chegou aqui como uma onda. Não foi à toa que o Governo brasileiro, adiante, rompeu relações com a União Soviética", afirmou; CRÉDITO: BRASIL 247/DIVULGAÇÃO
Fim da URSS, avanço neoliberal e crise do socialismo impuseram à esquerda novos dilemas políticos e estratégicos no fim do século XX
Quando a direita aderiu ao neoliberalismo, houve quem dissesse que só se sairia desse fenômeno com o socialismo, porque ele representava a versão mais avançada, mais radical, do capitalismo.
O neoliberalismo foi um enigma e um desafio novo e complexo para a esquerda, também porque foi contemporâneo ao desaparecimento da União Soviética e do chamado campo socialista.
O socialismo soviético era considerado a primeira expressão — correta para os comunistas, deformada ou indevida para outros setores da esquerda — de uma experiência socialista. O desaparecimento da URSS não se deu pelo surgimento de um socialismo democrático, mas por sua transformação, pelo menos em um primeiro momento, em um processo que parecia ser o da reinstauração de uma nova forma de capitalismo, um capitalismo de Estado.
O governo de Gorbachev representou essa situação, com todos os seus dilemas. Sua política externa praticamente abandonou todos os pressupostos da URSS, aderindo, aos poucos, a quase todas as posições dos Estados Unidos e do Ocidente.
Ele levava para a URSS os hábitos de consumo europeus, incentivando sua reprodução e prometendo que a democratização do país seria acompanhada pelo acesso ao consumo no estilo ocidental. Seria um desfecho marcado pela capitulação da URSS.
Em determinado momento, para surpresa de todos, Fidel disse que era possível o desaparecimento da URSS. Não ficavam claras, naquele momento, as razões nem o que surgiria em seu lugar. Era uma advertência e um chamado de atenção para que a esquerda não fosse pega de surpresa e desprevenida diante de um fenômeno daquela dimensão.
Até ali, a esquerda dizia que “a roda da história não vira para trás”. Mas se avizinhava um tempo de retrocessos de dimensão inesperada. O desaparecimento da URSS deixou órfão um setor da esquerda e desconcertou a esquerda em seu conjunto.
O que seria o mundo sem a URSS? O que viria depois? Os Estados Unidos se tornariam a única superpotência? O capitalismo proclamaria sua vitória sobre o socialismo realmente existente?
O que se sabia era que China e Cuba sobreviveriam a todas aquelas transformações, mas não se sabia em que condições enfrentariam a nova correlação de forças mundial.
O neoliberalismo aparecia com um potencial avassalador. Nunca um novo modelo havia mostrado uma capacidade tão grande de expansão por praticamente todas as regiões do mundo.
O capitalismo abandonava seu projeto de Estado de bem-estar social para aderir à desqualificação do Estado e à promoção da centralidade do mercado. A nova onda conservadora priorizava os riscos da inflação e centrava seus ataques no Estado, apontado como responsável por ela.
A onda neoliberal dominou o mundo no final do século XX. Um século que havia vivido a hegemonia imperial norte-americana terminava com o fim da Guerra Fria do segundo pós-guerra e com a vitória dos Estados Unidos.
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