Com menos de 10 mil habitantes, cidade brasileira trava batalha contra “montanhas de areia” que avançam sobre as casas

Paisagem que encanta turistas também desafia moradores com dunas que mudam de lugar ao sabor dos ventos
Movidas pela força dos ventos, “montanhas de areia” se aproximam de áreas urbanas e já exigiram investimentos milionários em contenção
Em uma pequena cidade do litoral do Piauí, o horizonte não permanece no mesmo lugar. Movidas pelo vento, enormes massas de areia avançam lentamente em direção às áreas ocupadas e transformam uma das paisagens mais impressionantes do Nordeste em um desafio permanente para quem vive por ali.
O fenômeno acontece em Ilha Grande, município com pouco mais de 9 mil habitantes localizado na região do Delta do Parnaíba. As dunas fazem parte da própria identidade da cidade e ajudam a formar o cenário que atrai turistas para esse trecho do litoral piauiense.
O problema começa quando a areia deixa de ser apenas parte da paisagem e se aproxima de casas, estabelecimentos comerciais, ruas e outros espaços ocupados pela população.
Não se trata apenas de uma percepção dos moradores, visto que documentos públicos registram há anos o avanço das formações arenosas em direção ao perímetro urbano e os investimentos realizados para tentar conter esse movimento.
Dunas avançam em direção à cidade
O deslocamento acontece principalmente pela ação dos vento, pois os grãos de areia são transportados continuamente e, ao longo do tempo, modificam a posição, o tamanho e o formato das dunas.
Em Ilha Grande, essa dinâmica natural acontece muito perto da área urbana. Com o vento atuando constantemente sobre os campos de areia, as dunas podem se deslocar e avançar sobre espaços ocupados pela população.
O problema ganhou dimensão suficiente para mobilizar órgãos públicos.
Em 2015, o então Ministério da Integração Nacional informou que um projeto de contenção abrangia 131 hectares de dunas próximas ao perímetro urbano de Ilha Grande. Na época, 99% dos trabalhos estavam concluídos.
Segundo o governo federal, as chamadas “montanhas de areia”, formadas por processos relacionados à ação dos ventos, ameaçavam residências e estabelecimentos comerciais. O investimento informado para aquela intervenção era de aproximadamente R$ 2,1 milhões.

Entre casas, rios e manguezais, enormes formações de areia transformam lentamente a paisagem de um paraíso nordestino/ Reprodução
Fibra de coco e vegetação ajudam a segurar a areia
Conter uma duna, no entanto, não significa simplesmente retirar toneladas de areia do caminho.
Uma das estratégias adotadas em Ilha Grande foi justamente tentar reduzir a movimentação do material provocada pelo vento.
O projeto envolveu a instalação de biocoberturas e o plantio de espécies vegetais adaptadas às condições locais. Documentos oficiais descrevem a intervenção em uma área de 131 hectares e ao longo de um perímetro de 6.405 metros.
Entre as técnicas utilizadas estavam biomantas produzidas com fibras vegetais, associadas ao plantio de espécies capazes de se adaptar ao solo, ao clima e aos ventos da região.
A lógica é relativamente simples: a cobertura vegetal funciona como uma barreira natural. As raízes ajudam a estabilizar o terreno, enquanto plantas e biomantas diminuem a quantidade de areia que fica exposta à ação direta do vento.
Em vez de tentar impedir completamente um processo natural, a estratégia busca reduzir a velocidade com que determinadas dunas avançam sobre áreas vulneráveis.
Avanço da areia voltou a exigir investimentos
As intervenções realizadas na década passada não eliminaram a necessidade de manejo das dunas.
Em outubro de 2024, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí (Semarh) assinou um novo contrato para serviços de engenharia destinados à contenção de dunas nos municípios de Ilha Grande e Luís Correia.
O contrato tinha valor global de R$ 1.059.892,22, prazo de execução de 90 dias a partir da ordem de serviço e vigência prevista de 180 dias.
A necessidade de novas intervenções ajuda a mostrar a complexidade do fenômeno. Dunas não são estruturas fixas. Enquanto houver areia disponível e ventos capazes de transportá-la, a paisagem continuará passando por transformações.
Em Ilha Grande, isso significa conviver com uma natureza que literalmente muda de lugar.
Dunas ameaçam áreas urbanas, mas são essenciais para o ambiente
A relação de Ilha Grande com suas dunas envolve um paradoxo.
As mesmas formações de areia que podem ameaçar áreas urbanizadas são fundamentais para o equilíbrio ambiental da costa.
O município integra a Área de Proteção Ambiental (APA) Delta do Parnaíba, criada em 1996 e distribuída por dez municípios do Piauí, Maranhão e Ceará. A unidade possui 307.590,51 hectares.
Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), as dunas exercem funções ambientais importantes. Elas ajudam a barrar o avanço do mar, dificultam a entrada de água salgada nos lençóis freáticos e protegem áreas vizinhas contra processos erosivos.
Por isso, a solução não passa simplesmente pela eliminação das formações arenosas.
O desafio é encontrar formas de estabilizar os pontos que oferecem risco às áreas ocupadas sem destruir um sistema natural essencial para a própria proteção do litoral.
Areia ocupa parte importante da geografia de Ilha Grande
A presença das dunas é tão marcante que aparece na própria composição territorial do município.
Documento ambiental disponível no sistema da Semarh aponta que aproximadamente 30% da área de Ilha Grande é formada por dunas inativas, enquanto outros 25% correspondem a depósitos litorâneos compostos por turfa, areia e argila. Os 45% restantes estão associados principalmente a depósitos de pântanos e mangues.
Essa combinação entre areia, rios, manguezais e áreas alagadas ajuda a criar uma das paisagens mais características do litoral brasileiro.
E também uma das mais procuradas pelos turistas que chegam ao Delta do Parnaíba.
Cidade é porta de entrada para o Delta do Parnaíba
Enquanto precisa administrar o avanço da areia sobre áreas ocupadas, Ilha Grande também depende justamente dessa paisagem para movimentar o turismo.
O município abriga o Porto dos Tatus, um dos principais pontos de embarque para os passeios pelo Delta do Parnaíba.
Segundo o ICMBio, dali partem embarcações em direção às cinco grandes barras do Delta: Igaraçu, Canárias, Caju, Melancieiras e Tutoia.
Barcos maiores podem transportar até 80 passageiros, enquanto voadeiras, embarcações menores e mais rápidas, conseguem entrar em canais e igarapés estreitos e levar visitantes a trechos mais escondidos do Delta.
O Plano Estratégico de Marketing Turístico do Piauí também aponta o Porto dos Tatus como uma das principais referências para os passeios pela região.
É nesse ponto que a relação entre turismo e movimento das dunas fica ainda mais evidente.

Dunas são atração turística e proteção natural do litoral, mas seu deslocamento também coloca áreas urbanizadas em alerta/ Reprodução
Passeio revela o encontro entre as dunas e o rio
Uma das cenas mais emblemáticas de Ilha Grande aparece no trajeto das embarcações que deixam o Porto dos Tatus.
É a chamada Caída do Morro, onde as dunas conhecidas como Morro Branco chegam até o Rio dos Tatus.
O local integra os roteiros turísticos oficiais e praticamente resume a geografia da região em uma única paisagem. De um lado aparecem grandes extensões de areia. Do outro, rio, vegetação e manguezais.
Morro Branco também possui uma trilha formada por trechos de dunas, mata e rio. Depois do período de chuvas, lagoas temporárias podem surgir entre as formações arenosas.
Caminhadas de aventura e atividades como sandboard também fazem parte das experiências oferecidas na região.
Nos passeios que seguem pelos canais e igarapés do Delta, a paisagem muda novamente. Manguezais substituem parte das dunas e abrigam animais como guarás, garças, macacos-prego, guaribas, jacarés e capivaras.
Delta reúne dezenas de ilhas
A dimensão desse cenário ajuda a explicar por que Ilha Grande se tornou estratégica para o turismo do litoral piauiense.
O Delta do Parnaíba é formado por uma extensa rede de rios, canais, igarapés e ilhas que se espalha antes do encontro das águas com o Oceano Atlântico.
O resultado é uma paisagem em constante transformação, composta por praias, dunas, lagoas, rios e grandes extensões de manguezais.
Nesse ambiente também vivem comunidades tradicionais cuja rotina está diretamente ligada aos recursos naturais.
O ICMBio registra a presença de pescadores, artesãos, catadores de caranguejo e coletores de ostras e mariscos. São atividades transmitidas entre gerações e profundamente associadas aos ciclos dos rios, das marés e dos manguezais.
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