
Testes indicaram que se trata de uma mistura de hidrocarbonetos com propriedades semelhantes às do petróleo extraído em terra na Bacia Potiguar (Foto: IFCE)
O caso envolve o agricultor Sidrônio Moreira, de 63 anos, proprietário do sítio onde a descoberta ocorreu

Técnicos da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) realizaram, pela primeira vez, uma visita técnica ao sítio onde um agricultor pode ter encontrado petróleo ao perfurar o solo em busca de água no município de Tabuleiro do Norte. A inspeção ocorreu na última quinta-feira (12) e chamou a atenção da equipe pela forma incomum como a substância surgiu, segundo informações publicadas pelo portal g1.
O caso envolve o agricultor Sidrônio Moreira, de 63 anos, proprietário do sítio onde a descoberta ocorreu. Ao perfurar dois poços em sua propriedade com o objetivo de encontrar água — recurso escasso na região — ele acabou encontrando um líquido preto, espesso, viscoso e com forte cheiro de combustível.
Durante a visita inicial, os técnicos da ANP analisaram o local onde o material emergiu e conversaram com a família do agricultor para compreender as circunstâncias da descoberta. Segundo especialistas da agência reguladora, o episódio chamou atenção pelo fato de o líquido ter surgido em uma profundidade considerada muito rasa para padrões da indústria petrolífera.
O superintendente da ANP, Ildeson Prates Bastos, explicou que, embora existam casos naturais de petróleo ou hidrocarbonetos que chegam à superfície, o cenário observado no sítio não se enquadra nessa situação."Existe o processo de exsudação, que é quando o petróleo ou hidrocarboneto como um todo vai à superfície de maneira natural. Mas não é o caso, claramente, aqui. Houve uma perfuração, uma perfuração rasa, uma profundidade muito abaixo do que é naturalmente realizado na exploração e produção de petróleo e gás".
A substância foi encontrada pela primeira vez em novembro de 2024. No entanto, a família comunicou oficialmente a descoberta à ANP apenas em julho de 2025. Desde então, aguardava uma avaliação técnica da agência para determinar a origem do material.
Nesta primeira inspeção, os técnicos não realizaram coleta direta da substância no local. Em vez disso, levaram uma amostra já analisada pelo Instituto Federal do Ceará (IFCE), instituição que acompanha o caso desde os primeiros relatos da descoberta.
Os exames laboratoriais realizados pelo IFCE indicaram que o líquido encontrado apresenta características físico-químicas semelhantes às do petróleo extraído em jazidas localizadas no estado vizinho, o Rio Grande do Norte. Ainda assim, especialistas ressaltam que a confirmação definitiva depende de análises mais aprofundadas.
Segundo o superintendente da ANP, a localização geológica da propriedade pode ajudar a explicar a presença da substância."Isso nos causou um pouco de espanto, mas considerando a área e a geologia da região, sendo uma borda de bacia, a gente pretende dar continuidade aos estudos para entender melhor o que pode ter acontecido. E, a partir de um relatório, a gente conseguir se manifestar mais assertivamente".
A área onde o sítio está localizado faz parte da chamada Bacia Potiguar, uma região conhecida pela produção de petróleo e gás há várias décadas. Embora o município não esteja dentro de um bloco oficial de exploração, o local onde o líquido foi encontrado fica a apenas 11 quilômetros do campo petrolífero mais próximo."
Na verdade, ela não está próxima da bacia sedimentar de Potiguar, ela está contemplada pela bacia sedimentar de Potiguar. Mas ela é uma região de borda e, obviamente, ela tem nas suas vizinhanças ali campos petrolíferos já conhecidos, já estabelecidos, consolidados, que produzem há décadas e que podem contribuir para que haja e que se comprove que o indício é o hidrocarboneto. Mas, obviamente, essa é uma análise preliminar. Só vai poder ser confirmado a partir de análises específicas".
Enquanto os estudos seguem em andamento, a ANP orientou o agricultor a isolar a área dos poços e evitar qualquer contato com a substância, que pode ser tóxica. A família também foi orientada a não realizar novas perfurações no local.
A descoberta, no entanto, trouxe um novo desafio para Sidrônio Moreira. Como os poços não podem ser utilizados até que a investigação seja concluída, o agricultor continua enfrentando dificuldades para acessar água em sua propriedade, dependendo de soluções alternativas para abastecimento.
Mesmo que as análises confirmem que o líquido é petróleo, o agricultor não será proprietário do recurso. A legislação brasileira estabelece que as riquezas existentes no subsolo, incluindo petróleo e gás natural, pertencem à União.Ainda assim, existe a possibilidade de compensação financeira caso a área venha a ser explorada comercialmente no futuro. Proprietários de terras onde há produção de petróleo podem receber participações financeiras, que podem chegar a até 1% da produção, dependendo das condições do projeto.
Apesar da expectativa gerada pela descoberta, especialistas da ANP ressaltam que muitos casos semelhantes acabam não resultando em exploração econômica.Segundo o superintendente da agência, já houve situações em que descobertas inesperadas levaram à criação de novos blocos exploratórios, mas também existem casos em que os volumes encontrados eram pequenos e sem viabilidade comercial."
Umas, sim, comprovaram a existência de petróleo e resultaram no desenho de um bloco exploratório, que foi a oferta. Mas muitas outras, não. Outras se comprovaram que é um líquido que ocorre em acumulação pequena, não comercial".
Enquanto os estudos continuam, a curiosidade sobre o caso segue crescendo na região do Vale do Jaguaribe, onde moradores acompanham com expectativa os próximos resultados das análises que poderão esclarecer a origem da substância encontrada no sítio do agricultor.
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