
César Tralli (Foto: Reprodução/TV Globo)
Crônica relembra Diógenes Afonso e discute o dever educativo da mídia após ação contra a Globo por erro de pronúncia da palavra “recorde”
brasil247.com/
Li esta crônica ontem à noite na Rádio Jornal do Recife.
Uma notícia vista na manhã de 19/02/2026 me fez lembrar do mestre da língua portuguesa Diógenes Afonso. Que saudade invade o peito da gente em razão da partida do mestre. Explico.
Ao escrever e comentar que os meios de comunicação têm atuado para deseducar a população com suas pronúncias de “Fê-linto”, em vez de “FIlinto”, ou de “Ô-linda”, em lugar de “Ó-linda”, recebo a opinião de que isso é uma besteira, ou, pior, coisa impronunciável no ar. Mas o problema é que tal deseducação se espalha e atinge jornalistas, comunicadores dignos e professores de todos os lugares. Vira uma doença propagada pelo vírus da poderosa rede de televisão. Todos falando de uma só maneira, da maneira “educada” entre aspas, que não foi a educação aprendida desde o leite materno em suas casas.
É da língua que raramente as nossas vogais “E” e “O” se pronunciam como se escrevem nas sílabas. Nem, muito menos, como “ê” e “ô”, ave Maria. Aliás, “ave” é bem ilustrativa da nossa variação, porque ora se pronuncia “ávi”, ora “avé”, como se escuta nos cânticos das igrejas católicas do interior do Nordeste. Assim também na palavra Recife, que ora é Ricife, ora é Ré-cife na pronúncia do povo. Ouça-se, a propósito, Alceu Valença cantando Voltei, Recife, e o Coral de Batutas de São José na música Evocação no. 1, de Nelson Ferreira. O coral em suas vozes eternas canta “Ré-cife adór-mecia, ficava a sonhar…”.
O tão natural Pernambuco, que dizemos Pér-nambuco, se pronuncia agora como Pêr-nambuco. E Petrolina, Pé-tró-lina, uma cidade de referência do desenvolvimento pernambucano, virou outra coisa: Pê-trô-lina. E mais este “Nóbel” da ortoépia televisiva: de tal maneira mudaram e mudam até os nomes das cidades nordestinas, que, acreditem, eu vi e ouvi: sabedores que são da tendência regional de transformar o “o” em “u”, um repórter rebatizou a cidade de Juazeiro na Bahia. Virou JÔ-azeiro! O que tem lá a sua lógica: se o povo fala jUazeiro, só podia mesmo ser Jô-azeiro.
Saudade do mestre Diógenes Afonso!
Copio da notícia publicada na Folha de São Paulo :
“MPF processa a Globo e pede R$ 10 milhões por pronúncia incorreta da palavra 'recorde'
Em uma ação civil pública movida pelo procurador Cléber Eustáquio Neves, a emissora é acusada de pronunciar de forma incorreta a palavra ‘recorde’. Ele pede que a empresa pague uma multa de R$ 10 milhões.
Na sua petição inicial, Neves diz que a Globo, junto com seus repórteres e apresentadores, tem adotado uma pronúncia errada da palavra ‘recorde’. Isso estaria causando um efeito manada na população, que falaria o termo também de forma errônea por culpa da emissora.
A palavra 'recorde' é paroxítona, com a sílaba tônica em cor: reCORde. Portanto, não leva acento gráfico e não deve ser pronunciada como proparoxítona. Leia-se RÉ-cor-de’, explica o procurador.
Para justificar a ação, ele adicionou vídeos do Jornal Nacional, do Globo Esporte e do Globo Rural. Em um deles, o procurador questiona a pronúncia de César Tralli, âncora do principal telejornal da Globo.
‘A Globo atua como um braço do Estado na difusão de informações, portanto, a utilização da norma culta da língua portuguesa não é uma opção estética, mas um modelo de qualidade e eficiência administrativa’, defende o procurador.
‘Quando uma concessionária de alcance nacional propaga, de forma reiterada e sistemática, um erro de pronúncia, conhecido por erro de prosódia, ela viola o direito difuso da sociedade a ter acesso a uma programação com finalidade educativa e informativa’, continua Neves.
Na ação civil pública, o MPF-MG pede uma retificação em rede nacional da palavra ‘recorde’ em telejornais e programas esportivos. Ele também solicita uma liminar em caráter de urgência para que a correção seja feita o quanto antes.
O procurador também quer que a empresa pague uma multa de R$ 10 milhões aplicada por ‘lesão ao patrimônio cultural imaterial da língua portuguesa’. A Globo foi notificada antes do Carnaval e ainda não apresentou sua defesa, o que deve ocorrer nos próximos dias”.
O que antes escrevíamos e parecia ser uma implicância bizarrice, agora vira sentença judicial. Era nosso dever antes e agora. O papel de todo escritor ou intelectual é ser um tribuno da educação. O que na medida de nossos meios modestos temos procurado fazer.
Toquem o Frevo No. 3 de Antônio Maria Frevo Nº 3 / Evocação Nº 1 / Saudade / É De Fazer Chorar - YouTube
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