
Economista diz que operação de mudança de regime combina sanções, tarifas e ameaça militar e alerta para “presidência sem freios” de Donald Trump
“Isso é uma operação de mudança de regime”
Ao ser questionado sobre o que estaria por trás do caos em curso no Irã, Sachs respondeu: “Isso é uma operação de mudança de regime”. Ele atribuiu a liderança do processo aos Estados Unidos e a Israel: “Liderada pelos Estados Unidos e por Israel, por iniciativa de Israel”.
Na avaliação do economista, o objetivo central seria derrubar o governo iraniano, repetindo um padrão de ações que, segundo ele, já foi empregado em outros países ao longo de décadas. “O objetivo é, claro, derrubar o governo iraniano”, afirmou, descrevendo uma estratégia composta por diferentes frentes.
Sanções, tarifas e “pressão máxima” para quebrar a economia
Sachs disse que o governo Trump estaria aplicando o que chama de “pressão máxima” para “quebrar a economia iraniana em todas as formas possíveis”, isolando o país e punindo terceiros que comercializem com Teerã. Ele citou um anúncio atribuído a Trump: “Hoje, Trump anunciou… que qualquer país que negocie com o Irã pagará tarifas de 25%”.
Para Sachs, a finalidade dessa política é explícita: “A ideia é destruir a vida das pessoas do Irã” e, em seguida, estimular protestos: “E então ajudar a fomentar protestos em grande escala em todos os lugares”. Ele classificou o método como um “plano de jogo” associado à inteligência ocidental: “É um plano de jogo bem conhecido e estabelecido da CIA e do Mossad”.
O economista também criticou a cobertura da grande imprensa ocidental, que, segundo ele, omitiria a responsabilidade de Washington pelo estrangulamento econômico: “Eles noticiam que o governo iraniano perdeu o controle da economia sem dizer que os Estados Unidos esmagaram a economia iraniana”.
“Jogo violento” e incentivo a confrontos nas ruas
Sachs descreveu a estratégia como “violenta” e “viciosa”, sustentando que o objetivo seria transformar sofrimento social em combustível para instabilidade interna. “Isso é um jogo… extraordinariamente violento, vicioso”, afirmou.
Em sua leitura, o roteiro se repete: as medidas econômicas agravam a vida cotidiana, manifestações são impulsionadas e, diante de mortes e caos, cria-se o pretexto para a escalada. “Se a mudança de regime não funcionar… eu esperaria ataques diretos dos Estados Unidos muito em breve”, disse.
MI6, 1953 e a lembrança do golpe contra Mossadegh
Perguntado sobre envolvimento do serviço secreto britânico, Sachs afirmou não ter prova direta, mas disse que, em geral, o MI6 costuma aparecer nesse tipo de operação: “Como princípio geral, o MI6 geralmente está envolvido, mas não tenho conhecimento direto algum de qualquer envolvimento do MI6”.
Ele lembrou, porém, o golpe de 1953 no Irã, atribuído a MI6 e CIA: “Foi o MI6 e a CIA que derrubaram um governo 72 anos atrás… foi em 1953 que o MI6 e a CIA derrubaram o governo democrático do primeiro-ministro Mossadegh”. Para ele, aquele episódio foi a “destruição da democracia do Irã”, ligada à disputa sobre o controle do petróleo.
A fala do chanceler iraniano sobre mortes para justificar intervenção
Durante o programa, Napolitano exibiu uma declaração atribuída ao chanceler iraniano, afirmando que haveria intenção de aumentar vítimas durante protestos para criar justificativa de intervenção externa. O trecho exibido diz: “O objetivo era aumentar o número de vítimas nos protestos… porque o Sr. Trump… disse que se pessoas forem mortas eles virão e intervirão”.
Sachs disse que o padrão lembraria episódios como a crise na Ucrânia em 2014 e resumiu o que chamou de “manual” histórico de desestabilização: “Tragam pessoas para as ruas, provoquem vítimas e então… ou provoquem internamente um golpe… ou… intervenham diretamente”.
Risco de guerra e alerta sobre escalada regionalAo discutir a possibilidade de confronto aberto, Sachs disse não acreditar que o Irã atacaria Israel antes de uma intervenção, mas avaliou que responderia se EUA ou Israel avançarem militarmente: “Eu acredito que o Irã atacará Israel quando, se e quando… os Estados Unidos ou Israel intervirem”.
Ele também retomou o episódio de junho mencionado na entrevista, descrevendo ações que atribui a Israel e a reação iraniana: “Quando o Irã disparou mísseis contra Israel, isso expôs que a defesa aérea… não foi suficiente para impedir muitos mísseis de atingir”.
“Presidência sem freios” e crise constitucional nos EUA
Além do Irã, Sachs dedicou parte central da entrevista a criticar a conduta de Donald Trump e o que chamou de erosão institucional nos Estados Unidos. Comentando a fala atribuída ao presidente — “Há uma coisa… minha própria moralidade, minha própria mente. É a única coisa que pode parar” — Sachs afirmou: “Estamos além da ordem constitucional nos Estados Unidos. Estamos em governo personalista”.
Ele disse que o Congresso estaria incapaz de exercer controle: “O Congresso está essencialmente morto… absolutamente incapaz e sem vontade de controlar esse… imperador”. E acrescentou: “Trump se comporta como se fosse um imperador… de um império americano, não um presidente de uma república constitucional”.
Sachs também afirmou que Trump governa por decretos e estaria usurpando funções do Legislativo: “Ele está indo à guerra quando a guerra é prerrogativa do ramo legislativo. Ele está impondo tarifas quando tarifas são prerrogativa do ramo legislativo”.
“As formas da república ficaram, mas não a essência”
Para o economista, os EUA preservam símbolos institucionais, mas perderam o núcleo do Estado de Direito: “Ainda temos as formas de uma república, mas não temos a essência de uma república agora, que é um governo de lei e um governo de ordem constitucional”.
Ele disse esperar uma reação do Supremo, citando o presidente da Corte, John Roberts: “Estamos esperando para ver se ele lembra… freios e contrapesos… somos uma nação de leis, não uma nação de homens”.
Venezuela e “embriaguez de poder”
No fim, Sachs comentou a referência feita no programa a uma postagem em que Trump teria se declarado “presidente interino” da Venezuela. O economista afirmou: “Eu não acho que é uma piada… eu acho que é realmente parte do delírio agora”.
E concluiu com um alerta: “Estamos em uma situação muito, muito séria… pessoas estão morrendo e estamos nos aproximando de uma guerra mundial”, afirmando que um ataque ao Irã teria potencial devastador por ocorrer no “maior caldeirão de instabilidade do planeta” no Oriente Médio.
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